Seu cérebro pensa em imagens e palavras: codificação dupla e o poder de rotular imagens
Tente lembrar de uma aula de anatomia, de um mapa ou de um fluxograma de processo penal. É bem provável que a primeira coisa que venha à mente seja uma imagem, e não um parágrafo. Há uma explicação científica para isso.
Dois caminhos para a mesma memória
Nos anos 1970, o psicólogo canadense Allan Paivio propôs a teoria da codificação dupla: o cérebro processa informação por dois sistemas relacionados, um verbal (palavras) e um não verbal (imagens). Quando um conteúdo é registrado pelos dois, ele ganha duas “portas de entrada” na memória. Se uma falhar, a outra ainda pode trazer a lembrança. Em 1991, James Clark e Paivio revisaram as aplicações dessa teoria na educação e mostraram efeitos consistentes em compreensão e memória 1.
Imagens são lembradas melhor
Esse efeito tem nome: superioridade da imagem. Em 1976, Douglas Nelson, Valerie Reed e John Walling mostraram que figuras são reconhecidas e lembradas melhor do que as palavras correspondentes, em parte porque imagens tendem a ser mais distintas entre si 2.
Richard Mayer, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, levou essas ideias para o ensino e formulou o princípio multimídia: as pessoas aprendem melhor com palavras e imagens juntas do que só com palavras. Ele também mostra que o texto deve ficar perto da parte da imagem a que se refere, para o cérebro não ter de “procurar” a ligação 3.
Gerar a resposta fixa mais do que lê-la
Existe ainda um terceiro ingrediente: o efeito de geração. Em 1978, Norman Slamecka e Peter Graf mostraram que palavras que a própria pessoa gera, a partir de uma pista, são lembradas melhor do que palavras simplesmente lidas 4. Quando você olha para uma estrutura escondida e tenta dizer o nome dela, está gerando a resposta, e não apenas reconhecendo.
Como o Meu Caderno aplica isso
- Qualquer imagem vira material de estudo. Coloque no caderno um atlas de anatomia, um mapa, um esquema de circuito ou um fluxograma da Constituição.
- Rótulos no lugar exato. Você marca cada ponto da imagem com o nome correspondente. Palavra e imagem ficam ligadas, como recomenda o princípio multimídia.
- Cada rótulo vira um flashcard de oclusão. Na revisão, o rótulo some e você precisa lembrar o nome. É codificação dupla e efeito de geração ao mesmo tempo.
- Tudo entra na revisão espaçada. Os cartões de imagem seguem a mesma agenda do FSRS dos outros cartões.
Num caderno comum, a imagem fica parada ao lado do texto. No Meu Caderno, ela vira uma forma ativa de testar a memória.
Referências
- Clark, J. M., & Paivio, A. (1991). Dual coding theory and education. Educational Psychology Review, 3(3), 149–210. doi:10.1007/BF01320076
- Nelson, D. L., Reed, V. S., & Walling, J. R. (1976). Pictorial superiority effect. Journal of Experimental Psychology: Human Learning and Memory, 2(5), 523–528. doi:10.1037/0278-7393.2.5.523
- Mayer, R. E. (2009). Multimedia Learning (2ª ed.). Cambridge University Press. doi:10.1017/CBO9780511811678
- Slamecka, N. J., & Graf, P. (1978). The generation effect: Delineation of a phenomenon. Journal of Experimental Psychology: Human Learning and Memory, 4(6), 592–604. doi:10.1037/0278-7393.4.6.592
Este artigo tem caráter informativo e resume pesquisas publicadas. Os resultados citados foram obtidos nas condições de cada estudo.