Meu Caderno Começar grátis
Prática de recuperação

Reler não é estudar: o efeito de testagem e por que puxar da memória vale mais do que ler de novo

Equipe Meu Caderno4 de outubro de 20267 min de leitura

Reler o resumo, grifar de novo, assistir à aula mais uma vez. Parece produtivo, e a sensação de que “agora entrou” é real. O problema é que essa sensação engana. A pesquisa mostra que o que mais fixa conteúdo é justamente o que dá mais trabalho: tentar lembrar sem olhar.

O experimento que mudou a forma de estudar

Em 2006, Henry Roediger e Jeffrey Karpicke, da Universidade Washington em St. Louis, pediram a estudantes que aprendessem textos curtos de ciências de três formas: ler quatro vezes; ler três vezes e fazer um teste; ou ler uma vez e fazer três testes de memória (escrever tudo o que lembravam).

Cinco minutos depois, quem só tinha relido ia melhor: 83% contra 71%. Uma semana depois, o quadro se inverteu. Quem fez três testes lembrava 61% do texto; quem leu quatro vezes, apenas 40%. E o detalhe mais revelador: o grupo da releitura era o mais confiante de que lembraria bem 1.

A armadilha da fluência: reler deixa o texto familiar, e familiaridade parece aprendizado. Só que, na prova, você precisa produzir a resposta, não reconhecê-la.

Lembrar de novo e de novo

Em 2008, Karpicke e Roediger publicaram na revista Science um estudo com pares de palavras em suaíli e inglês. Quando os estudantes continuavam sendo testados, mesmo nos itens que já sabiam, lembravam cerca de 80% uma semana depois. Quando os itens já acertados saíam dos testes e eram apenas relidos, a lembrança caía para cerca de 35%. Estudar de novo, sem testar, praticamente não ajudou 2.

Em 2011, também na Science, Karpicke e Janell Blunt compararam a prática de recuperação com a construção de mapas conceituais, uma técnica muito popular de estudo elaborativo. A prática de lembrar livremente produziu mais aprendizado, inclusive em perguntas que exigiam inferência, não só memorização 3.

O que dizem as grandes revisões

Em 2013, John Dunlosky e colegas avaliaram dez técnicas de estudo comuns num artigo de revisão que virou referência. Só duas receberam a nota de alta utilidade: a prática de testes e a prática distribuída (espaçada). Reler, grifar e resumir ficaram com baixa utilidade quando usadas sozinhas 4.

Repare na palavra “sozinhas”. Fazer resumo não é inútil: organizar o conteúdo ajuda a entender. O problema é parar no resumo e voltar a ele só para reler.

Como o Meu Caderno aplica isso

  • Seu resumo vira teste. No Meu Caderno, o que você escreve nas caixas vira flashcard. O resumo deixa de ser algo para reler e passa a ser a base da prática de recuperação.
  • Três jeitos de puxar da memória. Pergunta e resposta, lacunas (uma palavra escondida por vez) e oclusão de imagem. Em todos você precisa lembrar antes de ver a resposta.
  • Os acertos continuam aparecendo. Como no estudo de 2008, cartões que você já acerta voltam em intervalos cada vez maiores, em vez de sumirem da revisão.
  • Revisão espaçada junto. As duas técnicas de alta utilidade do estudo de Dunlosky, testar e espaçar, trabalham juntas: o FSRS decide quando cada cartão volta.

Em vez de terminar o dia relendo o caderno, você termina testando a memória, que é o que a ciência mostra que funciona.

Referências

  1. Roediger, H. L., & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249–255. doi:10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x
  2. Karpicke, J. D., & Roediger, H. L. (2008). The critical importance of retrieval for learning. Science, 319(5865), 966–968. doi:10.1126/science.1152408
  3. Karpicke, J. D., & Blunt, J. R. (2011). Retrieval practice produces more learning than elaborative studying with concept mapping. Science, 331(6018), 772–775. doi:10.1126/science.1199327
  4. Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J., & Willingham, D. T. (2013). Improving students’ learning with effective learning techniques. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4–58. doi:10.1177/1529100612453266

Este artigo tem caráter informativo e resume pesquisas publicadas. Os resultados citados foram obtidos nas condições de cada estudo.

Continue lendo